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domingo, 6 de agosto de 2017

Deixa essa vergonha de lado - Odair José

Corria o ano de 1973, quando em uma participação em programa da Rádio Tupi o cantor e compositor Odair José ouviu o locutor ler um texto com as principais reivindicações das trabalhadoras domésticas; a lauda descrevia as dificuldades e preconceitos enfrentados no cotidiano desta classe trabalhista. 
Conforme relata Paulo César Araújo, em seu livro "Eu Não Sou Cachorro Não", Odair achou o texto interessante e perguntou ao locutor Luiz Aguiar se poderia usar aquela temática nos versos de uma canção. O resultado foi "Deixa essa vergonha de lado", faixa que abre o seu quart disco, lançado em 1973. Além do estigma de subtrabalho que envolve as domésticas, a canção retrata também a barreira social que impedia as domésticas de namorararem um rapaz de classe média. 


A letra da canção ousa uma compreensão sociológica da realidade brasileira, a partir de uma perspectiva que compreende a realidade da empregada doméstica, pois visualiza o apartheid presente na maioria das construções brasileiras: o cômodo diminuto reservado às empregadas domésticas, bem como os espaços restritos de circulação, como a "área de serviço"/ "elevador de serviço". Anos depois em entrevista a Rádio Globo (transcrita do livro), Odair atesta o caráter reflexivo da canção:
“Eu me mudei para o Rio de Janeiro por volta de 1966. E chegando aqui dormi em banco de praça, dormi debaixo de marquises, dormi na praia e depois fui morar em quartos de fundos. E ao conviver com essas dificuldades todas eu aprendi a gostar das pessoas que também dormem em quartos de fundos. Foi quando eu fiz a canção Deixa essa vergonha de lado, que conta a história da pessoa que convive com a família, mas não é da família, ou seja, a empregada doméstica, aquela secretária de casa que serve para dar banho nas crianças, serve para levar o filho à escola, serve para passar roupa, serve para fazer a comida, mas não serve para casar com os filhos da gente. E isso é uma coisa que sempre me tocou muito”, afirma Odair.
Em consequência da repercussão da canção, Odair José se tornou o principal porta-voz das domésticas no campo musical, tendo empenhado-se inclusive para a criação do Dia Nacional da Empregada Doméstica, comemorado a cada primeiro sábado de Outubro. 


sexta-feira, 21 de julho de 2017

Oi - Glauco Neves



Oi é uma canção do baterista e videomaker Glauco Neves. Ela foi escrita há dez anos quando Glauco se apaixonou pela sua atual esposa Clarissa Marques. Eles foram apresentados por um amigo em comum e o primeiro movimento de Glauco foi criar uma conta fake no Orkut para manter contato - ele ainda vivia o processo de terminar um relacionamento e não podia usar o seu perfil de comprometido, pois assustaria a moça. Obviamente a moça sacou tudo e questionou Glauco que teve de assumir.


O tempo passou, Glauco terminou o namoro e ficou sabendo de uma festa em que Clarissa com certeza estaria presente. Ele então vestiu o seu traje penetra, foi à festa, conquistou um beijo e ainda voltou de carona com a moça. Nos dias seguintes escreveria "Oi", a canção. "Na música eu dou um Oi assim, beeem despretensioso, procurando saber se aquela noite tinha pra ela o significado especial que teve pra mim", explica o baterista. 

Dias depois a música seria enviada (por MSN) para Clarissa em uma gravação caseira feita no seu Mp3 Player - somente voz e violão como manda a tradição das serenatas. "Fiquei surpresa quando ele mandou a música, achei bem corajoso da parte dele. Era uma gravação bem tosquinha, mas eu ficava ouvindo toda hora", revela Clarissa. A cantada foi mesmo certeira: estava estabelecido o elo amoroso entre Glauco e Clarissa que há um ano se expandiu com a chegada do pequeno Benjamim.
Como amuleto do casal, a canção se fez presente também no pedido de casamento - feito por Glauco durante um show, em pleno dia dos namorados (que você confere no vídeo abaixo). Anos depois "Oi" receberia sua gravação oficial no primeiro disco de Glauco Neves e Sua Orquestra Elegante. "Nela eu toco bateria e canto. Ficou pegada Roupa Nova, bonitona, com a produção do Alex Reis", reitera Glauco

domingo, 18 de junho de 2017

O Caminhante - Dom e Ravel


Em 1974, a dupla de cantores Dom e Ravel lançou “O Caminhante” (letra), canção ousada por denunciar, em pleno  regime militar vigente, o problema da concentração fundiária no campo brasileiro. A faixa relata a luta de um camponês que onde quer que pise ouve “isto não é seu”; um drama até então oculto que ganharia projeção nacional duas décadas depois através das reações violentas às ocupações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra com o massacre ocorrido na região de Carajás, no Pará, em abril de 1996.

No livro “Eu não sou cachorro, não”, de Paulo César de Araújo, Ravel recorda que em 1974, por medo, as pessoas sequer pronunciavam a expressão “reforma agrária”. “Nós sabíamos que esse problema da exploração do trabalhador rural era muito grande no Brasil. Fazíamos os shows assim mesmo, cantando em galpões, fazendas, levando mordidas de mosquito, ficando atolado na estrada, vendo a miséria do povo, aquele povo simples que adorava música”, declarou em entrevista presente no livro.

Em um dos show da dupla, na região do Araguaia, a execução de “O Caminhante” foi o suficiente para que os cantores fossem verbalmente censurados. No final da apresentação foram abordados por uma pessoa ligada aos proprietários de terra da região que disse (transcrito de declaração ao livro): 

“Nós temos uma grande satisfação de recebê-los aqui sabemos que vocês ainda têm uma série de outros shows por toda essa região, então eu chamei você aqui para lhe advertir de uma forma muito amistosa: não cantem mais essa música nesses outros shows. Não cantem mais, porque vocês estão estimulando os nossos inimigos contra nós. E nós não admitimos isso.”, intimidou o preposto.


Acontece que na história Dom e Ravel ficariam marcados não como os revolucionários que escreveram "O Caminhante", mas como os autores da canção ufanista "Eu Te Amo Meu Brasil".  A música, que foi sucesso na gravação d' Os Incríveis em ritmo de marcha, se tornaria um símbolo da alienação propagada pelo regime enquanto tentava alardear o milagre brasileiro; um hit que vestia assim a ilusão de sucesso da ditadura.


segunda-feira, 29 de maio de 2017

Noite de Desejos - Odair José


Em 1974, o LP Lembranças do cantor e compositor Odair José estava pronto para lançamento quando teve aquela que seria a sua faixa principal, “A Primeira Noite de um Homem”, censurada. A canção vetada se inspirava no filme de Dustin Hoffman lançado no Brasil com o mesmo nome e descrevia as tensões de um homem em sua primeira relação sexual.

Ao confirmar o veto, a Divisão de Censura em Brasília confirmou o veto alegando que a composição “trata de um assunto totalmente incoviniente” e “como a música é de índole popularesca e seria consumida por públivo jovem, torna-se ainda mais contraindicada sua liberação”. O próprio Odair chegou a ir à Brasília conversar com os censores para tentar liberar a música de trabalho do disco. No livro "Eu Não Sou Cachorro Não" de Paulo César Araújo, Odair José relata o encontro com o general Golbery do Couto e Silva:



“Encontro com general você sabe como é que é, né? Eu fui acompanhado de um advogado e me lembro que no avião, durante a viagem, ele ia me orientando: ‘Não responda nada, não questione nada, aceite tudo o que o general disser.’ Chegando lá eu falei com o Golbery eu expliquei que a intenção da música não era corromper a juventude, que eu até poderia mudar alguma coisa na letra e tal, mas ele me disse: ‘Não! Está proibida a ideia’.” 

Pra provar ao general das dificuldades de se proibir uma ideia,  Odair aproveitou a melodia da canção, fez pequenas alterações na letra, assinou a “Noite de Desejos” e enviou para apreciação da censura. Sem alterar a mensagem que gostaria de expressar, Odair teve a canção Noite de Desejos liberada para ocupar a vaga deixada por “A Primeira Noite de um Homem” e assim enganou o general.



Compare abaixo os versos das canções:

A Primeira Noite de um Homem (Odair José): 
“Á primeira noite de um homem / é uma noite tão confusa / é uma noite tão estranha… / …meu desejo era tanto / que eu nem sabia por onde começar / o meu corpo esquentava / eu tremia / não conseguia nem falar…”


Noite de Desejos (Odair José): 
“E foi então que aconteceu…/… eu tinha medo e não queria / mas meu desejo era maior…/… foi naquela noite a primeira vez / e eu nunca esqueci…/… o meu corpo esquentava / eu tremia. “