Os versos de Brisa - poema de Manoel Bandeira - foram musicados pelo compositor Paquito, estabelecendo assim uma parceria póstuma. "Eu sempre me identifiquei com esse poema do Bandeira, gosto muito da expressão 'viver de brisa' que às vezes é até utilizada como uma recriminação. No poema ganha essa conotação positiva: viver de brisa é bacana, ter uma doce vida, preguiçosa, curtidora", explica Paquito.
A primeira gravação de Brisa foi feita por Maria Bethânia no disco Âmbar (1996). Paquito lembra que ela foi escolhida dentre cinco canções enviadas para a cantora em uma fita cassete. "Essa música tem um significado muito grande pra mim: pela graça de ter uma canção gravada por Bethânia e por ser justamente uma música em sintonia com o aspecto de nordestinidade que ela representa na cultura brasileira", agradece o compositor.
Uma curiosidade é que Brisa foi escrita sem o uso do violão, instrumento íntimo de Paquito. Ele cantarolou diretamente do livro, em uma leitura musical do poema. O compositor acredita que este processo foi o responsável por trazer à tona elementos nordestinos de sua musicalidade, aspectos notáveis no arranjo da gravação feito para o seu disco Falso Baiano (2002). "Essa é uma ancestralidade que me é muito cara, ela sai de mim sem que eu pense muito. A brisa é um vento leve, esse que nos sussura ao ouvido", reflete Paquito.
Foto: Sora Maia
Na interpretação do próprio autor a canção se revela uma brisa bem receptiva, que se permite receber no baião uma citação de The Inner Light - canção de George Harrison lançada pelos Beatles, tocada apenas por músicos hindus. Frequentador dos bons ares da praia do Porto da Barra, quando questionado se vive de brisa, Paquito sentencia: "Tem tudo haver comigo. Eu não vivo de brisa, eu quero viver de brisa. Agora enquanto eu puder sorvê-la, seguirei sorvendo".
O single de hoje nasceu de uma oração. Em algum dia do ano de 1999, o baiano Lalado, inspirado nos preceitos budistas - sua prática diária - escreveu frases soltas em seu caderno. Dias depois receberia a visita de dois amigos compositores (Alexandre Leão e Manuca Almeida) e do produtor cultural Jorge Albuquerque - conhecedor dos versos e responsável por “botar pilha” para que eles viessen a ser musicados. Estava formada a combustão que daria origem ao hit luminoso “Pop Zen” (letra).
“Me apaixonei na hora pela letra, trabalhamos na melodia que ficou pronta no mesmo dia. O grande lance dela é a mensagem de Lalado, ela é impregnada da energia linda que ele tem”, conta Alexandre Leão.
Foto: Felipe Oliveira
A canção se tornaria sucesso nacional em 2001 na interepretação marcante dos Lampirônicos. Pop Zen foi escolhida como primeira música de trabalho do álbum “Que Luz é Essa?”, sendo promovida em rádios e ganhou clipe na MTV com direção do cineasta Paulo Caldas . A canção foi apresentada ao grupo em sua forma crua por Manuca Almeida:
“Era como se eu estivesse diante de um templo budista erguido a céu aberto em meio as encruzilhadas de Juazeiro, assistindo um irrequieto monge sentado em posição de lótus num asfalto infernal a recitar um cordel. A canção parecia não precisar do Lampirônicos. Era a banda que precisava de uma música com tal força imagética e discursiva.”, conta Nikima, vocalista dos Lampirônicos à época.
Em estúdio a canção receberia ainda o toque mágico do percussionista Carlinhos Brown. Convidado a participar dos ensaios, o cacique do Candeal pescou, nas tentativas do baixista de definição da sua linha, a ideia que ressignificaria o arranjo da canção.
“Na minha memória, naquele momento uma melodia recitativa passou a suavizar sobre uma linha de baixo robusta e pulsante. Considero este o elemento mais marcante desse arranjo e um dos elementos musicais que mais contribuíram para alicerçar a força como uma das expressões da banda”, explica Nikima.
Desde então a canção segue o seu próprio rumo encantando interpretes e público por onde passa: ela foi gravada por Ivete Sangalo no disco Festa (2001), com arranjos do maestro Letieres Leite; por Marilda Santana em 2002; pela Família Caymmi, em 2005, para a abertura da novela Essas Mulheres, da Record; pelo cantor Arnaldo Antunes, em 2012, no seu DVD Acústico MTV e pelo próprio Alexandre Leão, em 2016, no CD O Teatro ( Ao Vivo).
Reza a lenda que exista ainda uma gravação inédita feita pela cantora Daniela Mercury. “No verão desse ano, Caetano ouviu Pop Zen no meu show e disse ter amado a canção. Até me espantou o fato de que ele ainda não a conhecia. Essa música tem 20 anos e continua por aí, forte”, declara Alexandre Leão.