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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Terra - Caetano Veloso



Terra é a canção de Caetano Veloso que abre o seu LP Muito (Dentro da Estrela Azulada). Ela reflete o período de confinamento e de exílio vivido pelo compositor durante o regime militar que tomou de assalto o poder no Brasil. Em 1969, quando estava preso no Rio, Caetano recebeu de sua esposa  Dedé uma Revista Manchete com as primeiras fotografias da Terra tiradas de fora da atmosfera. No seu livro Verdade Tropical o compositor lembra que aquela foi a inspiração inicial para escrever Terra:
"Eram as primeiras fotos em que se via o globo inteiro - o que provocava forte emoção, pois confirmava o que só tínhamos chegado a saber por dedução e só víamos em representações abstratas - e eu considerava a ironia de minha situação: preso numa cela mínima, admirava as imagens do planeta inteiro, visto do amplo espaço. Anos depois, já de volta à Bahia, compus uma canção de que ainda hoje gosto muito ("Terra") e cuja letra começa por referir-se a esse momento. Dirigindo-me à Terra, nos primeiros versos da canção, comento as tais fotografias "onde apareces inteira porém lá não estavas nua e sim coberta de nuvens". 
Terra já teve versões gravadas por diversos artistas. A mais recente, em 2015, interpretada por Paulinho Moska fez parte da trilha sonora da novela Sete Vidas. Destaque também para a versão instrumental gravada pelo guitarrista Armandinho no disco Retocando o Choro  (1999).

sábado, 22 de julho de 2017

Saudade dos Aviões da Panair - Milton Nascimento e Fernando Brant

* colaboração do jornalista musical Abner Moabe

Não faz muito tempo a canção “Conversando no Bar” pôde finalmente vir a assumir o seu título original. É que quando foi escrita, ser divulgada como “Saudade dos Aviões da Panair” soaria subversivo demais (letra). A música é mais uma das inúmeras parcerias de Milton Nascimento com o saudoso poeta e jornalista Fernando Brant. Ela foi gravada primeiramente por Elis Regina em 1974 e, no ano seguinte, pelo próprio Milton Nascimento. Em sua letra aparentemente singela, “Conversando no Bar” guarda memórias sobre um capítulo sombrio da história do Brasil que muitos insistem em negar. Esse texto falará mais sobre esses fatos do que sobre a música em si, mas no fim das contas, falando de um, estaremos falando do outro.

Eram três da tarde do dia 10 de fevereiro de 1965 quando um telegrama do Ministério da Aeronáutica chega aos escritórios da Panair do Brasil informando que o certificado de operação da empresa estava sendo cassado. A Panair era a maior empresa aérea do Brasil e uma das maiores do mundo. Naquela mesma noite, diversas tropas invadiram os hangares da empresa e passaram imediatamente ao comando da Varig. O curioso é que não havia nenhuma irregularidade nos impostos da empresa e mesmo assim a decisão do fechamento foi decretada pelo Marechal Castelo Branco.
Para explicar tal absurdo, entra em cena Mário Wallace Simonsen - um dos homens mais ricos do Brasil na época. Simonsen era o principal sócio da Panair e dono de inúmeras empresas, dentre elas, a TV Excelsior. Normalmente, grandes magnatas possuem boa relação com os detentores do poder, mas, no caso de Simonsen, a relação com os militares não era nem um pouco amistosa - querela que já vinha de antes mesmo do golpe. Mesmo não sendo um simpatizante da esquerda, suas pequenas atitudes em defesa da legalidade e da democracia brasileira acabariam causando a fúria dos militares e a sua própria ruína.
Em 1961, durante a tensão política que acabou resultando na renúncia de Jânio Quadros, enquanto os militares estavam prontos para tomar o poder, Simonsen mandou um de seus executivos para avisar ao vice-presidente João Goulart do que estava se passando no Brasil. Em viagem oficial a China, Jango corria o risco de voltar ao Brasil e se encontrar destituído do cargo que lhe era de direito.
Bastou um ano de governo militar para Simonsen ver o seu grupo empresarial desmoronar. A "falência" da Panair até hoje não foi reparada devidamente, assim como todos os demais crimes da Ditadura. Um mês após o fechamento da empresa, Simonsen faleceu, vítima de infarto. A TV Excelsior, a única que era opositora ao Regime Militar, começou a sofre pressões e ter seus programas censurados, entrando numa crise econômica que se agravou após o "incêndio" da sua sede, em 1989, fechando as portas em 1970.
Como é possível perceber, sentir saudades da Panair, como indicava a canção de Milton e Fernando Brant, não era algo bem visto pelas altas instâncias do poder ditatorial que regeu o Brasil de 1964 à 1985. Sentir saudade da Panair era sentir saudades de um tempo em que era permitido sonhar, de um tempo em que era permitido sentir saudades. Era lembrar que a maior das maravilhas era estar voando sobre o mundo nas asas da Panair.

Para que não mais se repita!!!

Para que não mais aconteça!!!

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Noite de Desejos - Odair José


Em 1974, o LP Lembranças do cantor e compositor Odair José estava pronto para lançamento quando teve aquela que seria a sua faixa principal, “A Primeira Noite de um Homem”, censurada. A canção vetada se inspirava no filme de Dustin Hoffman lançado no Brasil com o mesmo nome e descrevia as tensões de um homem em sua primeira relação sexual.

Ao confirmar o veto, a Divisão de Censura em Brasília confirmou o veto alegando que a composição “trata de um assunto totalmente incoviniente” e “como a música é de índole popularesca e seria consumida por públivo jovem, torna-se ainda mais contraindicada sua liberação”. O próprio Odair chegou a ir à Brasília conversar com os censores para tentar liberar a música de trabalho do disco. No livro "Eu Não Sou Cachorro Não" de Paulo César Araújo, Odair José relata o encontro com o general Golbery do Couto e Silva:



“Encontro com general você sabe como é que é, né? Eu fui acompanhado de um advogado e me lembro que no avião, durante a viagem, ele ia me orientando: ‘Não responda nada, não questione nada, aceite tudo o que o general disser.’ Chegando lá eu falei com o Golbery eu expliquei que a intenção da música não era corromper a juventude, que eu até poderia mudar alguma coisa na letra e tal, mas ele me disse: ‘Não! Está proibida a ideia’.” 

Pra provar ao general das dificuldades de se proibir uma ideia,  Odair aproveitou a melodia da canção, fez pequenas alterações na letra, assinou a “Noite de Desejos” e enviou para apreciação da censura. Sem alterar a mensagem que gostaria de expressar, Odair teve a canção Noite de Desejos liberada para ocupar a vaga deixada por “A Primeira Noite de um Homem” e assim enganou o general.



Compare abaixo os versos das canções:

A Primeira Noite de um Homem (Odair José): 
“Á primeira noite de um homem / é uma noite tão confusa / é uma noite tão estranha… / …meu desejo era tanto / que eu nem sabia por onde começar / o meu corpo esquentava / eu tremia / não conseguia nem falar…”


Noite de Desejos (Odair José): 
“E foi então que aconteceu…/… eu tinha medo e não queria / mas meu desejo era maior…/… foi naquela noite a primeira vez / e eu nunca esqueci…/… o meu corpo esquentava / eu tremia. “

domingo, 28 de maio de 2017

João Ninguém - Rita Lee


Transgressora desde a mais tenra infância, a cantora e compositora Rita Lee coleciona gestos e letras de libertação. Uma destas está na canção João Ninguém, gravada no disco Lança Perfume em 1980. 


A letra fala de um João Ninguém que é "dono da Aldeia", com ele "quem bobeou, dançou". No seu livro "Rita Lee: Uma Autobiografia" a cantora revela que o seu muso-inspirador da canção foi o então general-presidente João Figueredo. 

"Um cara pé de chinelo que saiu do estábulo e virou rei, mas o cheiro do estábulo nunca saiu dele, aliás, uma carapuça que cabe perfeitamente em nossos políticos de hoje", afirma Rita.