domingo, 18 de junho de 2017

O Caminhante - Dom e Ravel


Em 1974, a dupla de cantores Dom e Ravel lançou “O Caminhante” (letra), canção ousada por denunciar, em pleno  regime militar vigente, o problema da concentração fundiária no campo brasileiro. A faixa relata a luta de um camponês que onde quer que pise ouve “isto não é seu”; um drama até então oculto que ganharia projeção nacional duas décadas depois através das reações violentas às ocupações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra com o massacre ocorrido na região de Carajás, no Pará, em abril de 1996.

No livro “Eu não sou cachorro, não”, de Paulo César de Araújo, Ravel recorda que em 1974, por medo, as pessoas sequer pronunciavam a expressão “reforma agrária”. “Nós sabíamos que esse problema da exploração do trabalhador rural era muito grande no Brasil. Fazíamos os shows assim mesmo, cantando em galpões, fazendas, levando mordidas de mosquito, ficando atolado na estrada, vendo a miséria do povo, aquele povo simples que adorava música”, declarou em entrevista presente no livro.

Em um dos show da dupla, na região do Araguaia, a execução de “O Caminhante” foi o suficiente para que os cantores fossem verbalmente censurados. No final da apresentação foram abordados por uma pessoa ligada aos proprietários de terra da região que disse (transcrito de declaração ao livro): 

“Nós temos uma grande satisfação de recebê-los aqui sabemos que vocês ainda têm uma série de outros shows por toda essa região, então eu chamei você aqui para lhe advertir de uma forma muito amistosa: não cantem mais essa música nesses outros shows. Não cantem mais, porque vocês estão estimulando os nossos inimigos contra nós. E nós não admitimos isso.”, intimidou o preposto.


Acontece que na história Dom e Ravel ficariam marcados não como os revolucionários que escreveram "O Caminhante", mas como os autores da canção ufanista "Eu Te Amo Meu Brasil".  A música, que foi sucesso na gravação d' Os Incríveis em ritmo de marcha, se tornaria um símbolo da alienação propagada pelo regime enquanto tentava alardear o milagre brasileiro; um hit que vestia assim a ilusão de sucesso da ditadura.


sábado, 17 de junho de 2017

A Cigarra e a Formiga - Sílvio de Carvalho



A Cigarra e a Formiga é uma canção em que o cantor e guitarrista Sílvio de Carvalho reflete uma decisão que tomou para a vida: ser músico. “Aquele momento que tive de escolher entre trabalhar com a única coisa que eu sei fazer ou inventar uma profissão que eu pudesse desempenhar no automático sem muito esforço”, revela Sílvio.

Na atualização musical que o guitarrista faz da Fábula de Esopo, a função da Cigarra se engradece em reconhecer a própria função. “Acho que a obrigação do artista é ter tempo pra cantar. Claro que as coisas vão boas em uns tempos, fracas em outras, piores ainda depois, mas o que eu queria realmente é que a cigarra entendesse que o melhor que ela pode fazer é cantar”, explica o cantor.

                                                                         A Cigarra e A Formiga por Velotroz
Pois esta mesma canção serve de exemplo dos bons frutos colhidos a partir da sua escolha profissional. A Cigarra e Formiga já contava com duas versões de bandas por onde Sílvio havia passado (Dellas Frias e Velotroz) quando , em 2014, foi gravada em seu projeto solo e selecionada entre as finalistas do Festival de Música da Educadora FM em 2014 – indo direto para a programação da emissora.

                                 A Cigarra e A Formiga por Dellas Frias

“A seleção me surpreendeu muito, porque era uma música antiga e com uma produção assinada por mim: bateria de Luciano Tucunduva e eu tocando todos os outros instrumentos, mixando e finalizando do jeito que pude”, declara Sílvio.Hoje ele segue cantando, cumprindo a função de cigarra, como vocalista e guitarrista da banda Tabuleiro Musiquim que se prepara para lançar o EP Mano.



sexta-feira, 16 de junho de 2017

Fica com a Razão - Daniel Ayres


“Fica com a Razão” é uma canção de Daniel Ayres que nasceu debaixo do chuveiro. O cantor se banhava quando desenvolveu uma resposta melódica e bem humorada à discussão corriqueira que acabara de ter com a esposa. Na faixa, gravada no seu disco Falantes (2016), Daniel desencana de ter razão, oferecendo uma crítica aos limites da racionalidade humana. 





“A razão é um perigo, pois você acha que está bem situado e protegido, quando na verdade muitas vezes está super confuso e emotivo; usa a razão pra tentar esconder isso, fugir disso”, reflete o cantor. 

Profunda conhecedora dos hábitos argumentativos de Daniel, a sua sogra (argentina) contestou a canção logo na primeira audição. Virou para a filha e sentenciou: no le creo. “Eu pessoalmente canto ela muito pra mim mesmo, porque na verdade tenho dificuldades de largar a razão, sou uma pessoa muito racional e que gosta de polêmicas”, assume Daniel. 

Essa não é a primeira vez que o integrante do grupo infantil Badulaque trata da razão na forma de música. Ela é abordada também em “Desvenda-se”, gravada em seu primeiro disco solo lançado em 2005. Seriam esses frutos de um observador vigilante da realidade? “Algumas músicas vêm assim de repente, meio prontas e do nada. É uma questão de levar a sério, porque às vezes a tendência é ignorar as ideias que não foram programadas”, explica Daniel.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Lema - Carlos Rennó/Lokua Kanza


“Lema” (letra) é uma canção com letra de Carlos Rennó e música do congolês Lokua Kanza – parceiros que consolidaram a afinidade musical em 2005 com o lançamento do disco “Hoje” de Gal Costa, em que assinam três composições. Foi da escuta das interpretações de Gal, que Lema, a quarta parceria, nasceu: o cantor Ney Matogrosso ligou pessoalmente para Rennó pedindo uma música inédita da dupla.



“Acabei então por escrever esta letra que homenageia o Ney, naquilo que eu vejo nele e que coincide com aquilo que penso sobre o processo de envelhecimento. O Ney é um espírito jovem que inspira todos nós por envelhecer de uma forma sã, mantendo uma vitalidade, uma poesia, uma alegria de viver”, explica Carlos Rennó. Como fiel seguidor do “Lema”, Ney gravaria a canção, em 2008, no show Inclassificáveis, com performance marcante liderando uma banda de rock no alto dos seus 67 anos.



Os segredos do bom envelhecer feitos de oração na letra de Rennó podem também ser encontrados na sua prática diária, ao encarar a saúde como filosofia de vida. Ele é praticante de yoga há 18 anos e mantém uma dieta macrobiótica há 19. Como diz um dos versos, não costuma “lamentar a mudança que o tempo traz”: “Embora respeite, não me agradam as tentativas de mascarar as mudanças trazidas ao corpo pelo envelhecimento. Se envelhecer é tornar-se feio, então enfeiar-se é que na verdade é o que há de mais bonito”, reflete Rennó.

A pista da sabedoria o poeta deixa nas entrelinhas: eis uma canção sobre o envelhecimento, mas que não esquece de saudar a meninice em cada um de nós. “O maravilhamento que existe quando estamos conhecendo as coisas pela primeira vez, de fato se dá mais quando somos novos, mas nunca deixamos de sentir. Enquanto estivermos vivos estaremos aprendendo, sempre continuaremos meninos diante dos fatos novos que a vida traz”, explica o poeta e letrista.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Encrespei - Luana Assiz



A jornalista e cantora Luana Assiz vivia sua transição capilar quando escreveu a canção Encrespei. O estalo veio certa noite, em frente a TV, enquanto assistia ao seriado Mister Braun; no episódio em que a atriz Thaís Araújo afirmava diante de uma criança a beleza do seu cabelo crespo. “Isso não existia nos programas da minha infância. Ali eu parei pra refletir sobre a importância da representatividade no combate ao preconceito racial, do porquê não devemos negar o nosso próprio corpo”, explica Assiz.

                                                                                               Foto: Pedro Telles

Vivendo a sua negritude e livrando-se do padrão de alisamento capilar, Luana encontrou na música um canal para expressar a sua verdade, assumir-se diante do mundo: "Agora decidi parar de me esconder/ Eu vou pra rua com meu cacho 4C". E o seu canto ecoou: “O retorno que mais me emocionou foi de uma jovem que disse que a música foi o impulso que ela precisava para tomar a mesma decisão”, revela Luana.

A música Encrespei foi lançada como clipe - produzido pelo videomaker e designer Pedro Telles - no dia 20 de novembro de 2016, dia da celebração da consciência negra. Ela foi postada pela manhã e repercutiu nas redes sociais ao longo de uma semana, gerando convites para entrevistas e um retorno da própria Thaís Araújo, atriz que inspirou a canção.


Depois de "Encrespei" muita coisa mudou na vida de Luana: hoje ela estuda canto, produz conteúdo para o canal Vrá - em que entrevista mulheres com atuação social - e se prepara para uma temporada de trabalho em Angola. “A arte é um meio de empoderamento, de fortalecer as pessoas no enfrentamento de imposições culturais que levam muitas mulheres a uma mutilação química das suas raízes”, declara Assiz.

terça-feira, 13 de junho de 2017

CHEGA! - Ricardo Caian


CHEGA! é uma música de Ricardo Caian escrita para ontem. Em meio a crise moral vivida pelo Brasil, não dá nem mais tempo de seguir achando que está tudo normal. “Eu não costumo compor músicas tão rapidamente, mas essa saiu assim de pronto, em pouco mais de uma hora. Acredito que seja o desabafo de muita gente e a arte é a minha arma de guerra nesse momento”, explica Caian. 


O cantor baiano escreveu CHEGA! em frente à televisão, enquanto o noticiário da Globonews abusava do seu quarto poder para condenar as manifestações populares que exigiam a realização de novas eleições diretas – mais um episódio em que a acusação de vandalismo se sobrepôe a causa que levou as pessoas às ruas. “Eles não falam do vandalismo diário que é exercido pelo poder da caneta, da barbárie que é o poder público ser usado para governar em benefício próprio”, questiona o cantor.

A divulgação da canção foi feita com o cantor tocando em plena Praça Municipal. Com o olhar fixo para a câmera: um recado direto, preciso e necessário aos dias de hoje.Confere abaixo a letra:


CHEGA (Ricardo Caian)

Não era um bando de arruaceiros 
Não foi por causa de um futebol
É que o povo agora tem que agir ligeiro
Antes que nos cobrem luz do sol
Antes que chegue outro janeiro
Antes que eu rasgue outro lençol
Antes que nos tomem outro direito
Outras pedras vão jogar 
A gente quer diretas já

A gente não quer nenhum justiceiro
Mas ver a justiça funcionar
Não pra prender pobre jovem negro
Mas quem faz a miséria prosperar
Vândalos vestindo terno preto
Cínicos querendo te roubar
Nos vendendo por qualquer dinheiro
Como peixes no anzol
Não durmo nem com rouphynol

Chega desse jeito brasileiro
De ter seu pirão primeiro
De sorrir em estar melhor 
Que o outro logo ali
A contar cada real
Nesse país tão desigual
Chega desse jeito trapaceiro 
Desse jogo interesseiro 
De mentiras e mesóclises 
Mas vai cair sua casa e meu jogral
Democracia ou vai ter pau

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Amar é - ZecaCuryDamm

*Texto de Ricardo Cury, escritor, baterista e contador de causos do rock baiano

Era primavera de 2005. Eu e Damm tínhamos gravado um disco de música dos outros pra deixar nos bares. Todas as músicas no cajon, voz e violão. Jeff Buckley, Tears for Fears, Beatles, Sade, Secos e Molhados... Empolgado com a sonoridade, Damm sugeriu que voltássemos pro estúdio, porém com músicas próprias, e gravássemos um disco novo. No processo de composição, ele chegava lá em casa com a melodia e a ideia pra eu encaixar outras palavras. 

- Tô com essa ideia aqui “Se pego uma canção e faço dela a minha vida” – disse ele, entre o sol e o dó no violão. 

- Tiro o pé do chão e faço disso minha ida pro seu coração... 

E num jogo de frases em menos de 10 minutos a ingênua letra estava pronta. 

Era fácil compor com Damm, pois qualquer palavra sugerida, ele dava um jeito de colocar na melodia sem ficar forçado.

A ideia desse disco era gravar só com instrumentos desligados, usando só microfones para a captação, daí usamos as madeiras cajon, violão e baixolão, além de diversos instrumentos percussivos para preencher o ritmo ditado pelas madeiras. 

Na tarde que gravamos essa música, recebemos a visita de Glauber Guimarães, ex-Dead Billies, que, ao ouvi-la sugeriu colocar uma gaita. 

–  Posso levar pra casa e voltar amanhã? 

– Pode. 

Voltou com o arranjo e com a ideia pra um “oh yeah” que fica sendo dito diversas vezes, bem baixinho no fim da música, enquanto vozes da gente e de nossas companheiras vão falando por conta própria o que amar é. 


Comigo já fora da banda, em 2007, Damm conta que foi contatado por alguém da banda Jammil, querendo iniciar uma conversa para produzir a banda. Depois de algumas reuniões onde ele foi perguntado sobre o conceito estético e musical, falaram em um futuro com disco novo, shows e sugeriram que numa suposta regravação dessa música, poderiam convidar o cantor Bruno Gouveia do Biquini Cavadão, amigo deles, para participar dela. 

- Só que de repente eles pararam de atender nossas ligações e pouco tempo depois surge Jammil com uma música toda flower chamada Amar é, com um clip idem... e com o cara do Biquini Cavadão.

Em 2012, a agencia de propaganda do Shopping Barra nos contatou pedindo para usar a música como tema da campanha de Dia dos Namorados daquele ano. 

Quando lançamos o disco, em 2006, também recebemos um convite parecido, porém para a música “Eu e você no jardim”. Torci para que a coisa não se concretizasse e deu certo. Eu botava fé no rock e quando uma música vira jingle ela deixa de ser uma música para se transformar apenas em um... jingle. 

– Se rolar mesmo, nunca mais poderemos toca-la ¬– disse eu. 

Mas agora era 2012, tudo já tinha se dissolvido e algum a mais na conta bancaria é sempre uma conta a mais paga.


                            Feliz Dia dos Namorados!