quarta-feira, 12 de julho de 2017

Espanhola - Guarabyra/Flávio Venturini

* colaboração do jornalista musical Abner Moabe

Quem nunca teve aquela história de amor platônico, em que fica aquela sensação de uma afinidade que poderia ter ido além da amizade? Foi uma história como essa que inspirou a letra da música Espanhola – um clássico do repertório voz e violão nos barzinhos de todo o Brasil.


Lá pelos idos de 76, a dupla Sá & Guarabyra havia se mudado para São Paulo. Era inverno e o frio castigava os cariocas que não estavam acostumados com as baixas temperaturas. Guarabyra rapidamente descobriu um bar e tratou de fazer amizade com o gerente. Numa noite fria, enquanto tomava alguns licores para se esquentar, lembrou da amiga Fafá . Ela havia ficado no Rio de Janeiro e ele achava que a história deles poderia ter sido bem mais do que uma amizade.

Enquanto seguia nessa viagem emocional, o tempo foi passando: era hora de fechar o bar. A casa de Guarabyra ficva a oito quarteirões dali - o que no frio fica ainda mais longe. Foi quando ele lembrou que os amigos Flávio Venturini e Sérgio Magrão - do grupo O Terço - moravam próximos do bar. Tava formada a oportunidade para uma visita.
                                                    Foto: Juarez Rodrigues
Ao chegar na casa, Guarabyra foi recebido por Flávio Venturini com um aquecedor para descongelar suas mãos. Como já havia interrompido o sono do amigo, provocou Flávio procurando sobre novas composições. Músico já gosta! Flávio então pegou o violão e mostrou a melodia em que estava trabalhando naqueles dias. Guarabyra sacou lápis e papel e colocou pra fora a história com Fafá. Escreveu a letra da música toda de uma vez.

Já recuperado do frio e se sentindo mais leve, Guarabyra sentiu que já tinha condições de chegar em casa. Agradeceu ao amigo pela acolhida e partiu. No dia seguinte, o telefone da casa de Guarabyra toca. Era o Flávio Venturini dizendo que a letra tinha ficado perfeita. Até aí nada demais, se não fosse por um pequeno detalhe: Guarabyra não lembrava nem que tinha passado pela casa de Flávio, muito menos de ter escrito a letra de uma música. Coube ao Flávio ensinar ao Guarabyra a letrar que ele próprio tinha escrito.
Espanhola foi gravada originalmente pela dupla Sá e Guarabyra em 1977, no clássico disco Pirão de Peixe com Pimenta. Anos mais tarde, em 1982, Flávio Venturini fez seu registro em seu primeiro disco solo, Nascente, quando ainda integrava o 14 Bis. De lá pra cá ela já foi regravada diversas vezes e se tornou uma das mais belas músicas do nosso cancioneiro popular.

terça-feira, 11 de julho de 2017

O Tao Não é de Ter - Pivete Pereira




“O Tao Não é de Ter” é uma canção de Pivete Pereira. O músico conta que ela foi gestada durante as mudanças de vida que surgiram quando descobriu que seria Pai. “Ser Pai foi um impacto químico no meu cérebro. Mudou tudo dentro.Foi quando tive contato com ensinamentos valiosos da filosofia taoísta e percebi que não devia aplicar o meu esforço na contramão do que a vida me apresentava ”, revela o músico.

Inspirada nos ensinamentos da filosofia taoista, a canção teve como ponto de partida a letra. Nela o eu lírico reflete sobre aceitação e reconhecimento dos caminhos envolvidos na sua jornada pessoal. Para compor a melodia o autor conta que desviou do caminho que se apresentava mais óbvio: compor um mantra. Assim alcançou uma canção recheada de espiritualidade e ao mesmo tempo dotada de balanço. 
                                                                                                             Foto: Ana Luíza Abreu
“O Tao Não é de Ter”, foi lançada em EP autoral em 2015 e conta com produção, gravação e execução do próprio Pivete. "Foi um processo todo artesanal mesmo: de preparar o equipamento pra gravar, apertar o REC e correr pro instrumento pra tocar", explica o músico. Pivete Pereira hoje mora em Cachoeira, berço musical do Recôncavo Baiano, e, pela intensidade com que absorve as mudanças vividas, em breve deverá estar colhendo novos aprendizados musicais.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Assunto Pendente - Gustavo Carvalho/João Vinicius


A canção Assunto Pendente é uma parceria entre os músicos Gustavo Carvalho e João Vinicius. A inspiração para escrevê-la partiu de um passeio de Gustavo na companhia de uma amiga à Praia do Buracão, no Rio Vermelho. Era um fim de tarde de vendaval na cidade, os dois ficaram sentados contemplando o movimento das ondas nas pedras, abraçaram-se para se proteger do frio e de repente aconteceu um beijo. “Foi uma surpresa que felizmente não desviou o fluxo das coisas. Fiquei com aquilo e escrevi a música. Hoje eu sinto que as palavras dela estão distantes do sentimento que guardo. Como canção, hoje ela me significa mais pelo movimento do violão, do vento, dos corpos”, revela Gustavo. 

Três anos depois, atuando como guitarrista/tecladista da banda A Tripe, Gustavo apresentou a música aos outros integrantes do grupo.  Por coincidência o guitarrista João Vinicius também conhecia a moça e acabou dando sua contribuição nos versos da canção, adicionando uma pitada de sensualidade. Caberia ao terceiro integrante d’ A Tripe, o baterista Luciano Tucunduva, fazer a canção ganhar um novo destino com a gravação da cantora Paula Oliveira.

“Conheci o Luciano em estúdio gravando as vozes do EP ‘Rasgue depois de usar’, desenvolvemos um laço através da música. Quando entrei no processo de pré produção do meu primeiro disco ele já sabia bem o que queria trazer pro trabalho. Foi quando me apresentou ‘Assunto Pendente’. Ela parecia que tinha sido escrito por mim e condensou a ideia das outras canções que tratam de amores não vividos e histórias inacabadas”, revela Paula. A faixa foi gravada e acabou dando título ao primeiro disco de Paula. Ela ganhou ainda videoclipe com direção de Leonardo Bragioni.

Assunto Pendente chegou a ser gravada também pelo grupo A Tripe, mas com o encerramento do projeto, devido a mudança de moradia de um dos integrantes, até então se encontrava guardada em HD's empoeirados. O Single do Dia futucou e conseguiu extrair em primeira mão a versão d’ A Tripe. Confere aí:




domingo, 9 de julho de 2017

Avenida Sete - Marceleza de Castilho


* depoimento do pintor e guitarrista Marceleza de Castilho, autor de Avenida Sete (letra)

Sou da Avenida Sete. Nasci na maternidade do Espanhol, meus avós paternos moravam defronte do colégio N. Sra das Mercês. Comecei e findei os estudos ali - maternal, primeiro e segundo grau. Nas redondezas muita sola gastei: Paes Mendonça do Politeama e Canela, Ceasa do Forte de São Pedro; Padarias diversas. Escalava o monumento do Campo Grande, quando esse ainda era de areia. Cavalgava nos leões da praça da Piedade, quando ali ainda habitavam iguanas nos flamboyants. 
Apalpava todas as estatuas do passeio público. Admirava a igreja do Aflitos, foi lá que meus pais se casaram. As lojas de animais do Dois de Julho. As coisas da Carlos Gomes. Os milhares de metros de tecido, do Rosário ao Relógio de São Pedro. Uma dezena de carnavais curtidos na varanda das Mercês, de onde acenava para as celebridades. Dormia com as percussões dos blocos afros da madrugada. Mortalhas e mamães-sacode. Assistia do segundo andar todas as confusões, com direito a estilhaços de garrafas e tudo.

Minha mãe trabalhava e ainda trabalha, na Fundação Nacional de Saúde, que fica em frente ao Museu da Bahia, no meio do corredor da Vitória - trecho que percorria diariamente com meu irmão. Durante o ginásio saíamos da escola ao meio-dia e encontravámos com ela pra almoçar. 

A idade do colegial me permitiu outras liberdades. Meus pais já haviam se mudado do Monte Serrat para o Imbuí. Eu já tinha, e ainda preservo, o hábito de acordar cedo: pegava o ônibus para o colégio, chegava bem antes o horário da aula e ia para o Politeama, ou somente até a Lapa, fazer um trecho maior de caminhada, ver os camelôs manobrando seus carrinhos, suas caixas de mercadorias. Aventuras de bebedeira. Vadiagens mil, rolés, do Pelourinho ao Porto da Barra nas aulas vagas dos dias de sol. O almoço e/ou janta na casa da vó também sempre estava disponível.
O projeto Suinga foi pretexto e fruto dessa reflexão. Mas a canção “Avenida Sete” não veio na primeira leva de canções do grupo. Foi uma segunda etapa de maturação do que estávamos fazendo. Não lembro exatamente onde cantarolei ela pela primeira vez, mas lembro que o primeiro verso veio pronto. E que o restante não teve dificuldade de sair.
Passei a tocá-la nas diversas rodas de cerveja, prosa e violão – encontros frequentes entre nós no período entre 2009 e 2012. Quando digo nós, me refiro aos amigos das muitas bandas dessa simbiótica fase-geração: Maglore, Pirigulino, Suinga, Velotroz, Vitrola Azul, Tabuleiro Musiquim, Enio, Lobão, Neologia, Truanescos, Acord, etc. A amizade acima de tudo garantia uma troca e influência mútua, muito intensa entre nós.

Já estava na França quando Teago (Maglore) me mandou uma mensagem dizendo que estava preparando o segundo disco, Vamos pra rua, e queria incluir Avenida Sete. ( “- Não precisa nem pedir, é nossa!”). Era uma música destinada à Suinga, mas que nunca chegou a entrar no repertório que na época já estava bem recheado.
                                                              Foto: Leo Monteiro
Na verdade eu ainda não tinha dado a música como pronta. Quando Teago mandou a mensagem, passei a noite escrevendo uma segunda parte e dois dias depois mandei pra ele. Ele disse que o arranjo já estava bem redondo, então somente aguardei com ansiedade o resultado. Sem me alongar muito nesse ponto digo, que simplesmente, foi emocionante eles terem gravado ela.

Assisti vídeos, trechos dos shows pelo Facebook, com participações de Diego Fox e tudo mais. Quando estive no Brasil em 2014 não coincidiu com nenhuma apresentação da Maglore. Só pude presenciar a execução da música ao vivo mesmo em dezembro do ano passado, 2016, no Museu do Ritimo, durante o Festival Sangue Novo, com direito a dedicatória e tudo. Uma semana depois subi no palco com eles para cantá-la em uma apresentação em Feira de Santana. 





sábado, 8 de julho de 2017

A Maré Tá Boa - Dinho Castilho



“A Maré Tá Boa” é uma canção do poeta Dinho Castilho gravada pela banda Suinga no disco Recomeço (2014). Dinho lembra que o ponto de partida da música foi o seu próprio título/refrão colhido em um papo com o baterista Maicon Charles (in memorian) durante sessão de gravação no estúdio Caverna do Som. Com a música fluindo, as atividades se multiplicando e os amigos se realizando eles encontrariam na expressão da pescaria a síntese daquele início de década.

                                                 Foto: Leo Monteiro


Na letra, as condições favoráveis do eu lírico são associadas à transcendência (“tá batendo onda”) que mostram a sua disposição em conquistar o verão: “Escrevi ela numa época em que andava muito de bike pela Orla, então tem muito dessas viagens aí”, explica Dinho. Assim a música segue passeio pela Orla até chegar ao pôr-do-Sol no Porto da Barra - pico que já foi considerado uma das melhores praias do mundo.

Ao ser vestida (ou seria desnuda?) pela banda Suinga, a canção receberia ainda uma lapidação final dos versos, feita pelo vocalista Fox, e ganharia os arranjos malemolentes das guitarras de Sílvio de Carvalho.



sexta-feira, 7 de julho de 2017

O Ferro de Passar a Roupa - Gilton Della Cella/Carlos Villela


O Ferro de Passar a Roupa é uma parceria de Gilton Della Cella e Carlos Villela escrita em 2002. Gilton conta que a letra foi construída a partir de imagens da infância que viveu no Vale do Jequiriça; lembranças dos momentos que acompanhava a mãe passando as roupas dos seus 7 filhos ao som da Rádio Sociedade da Bahia. “Uma pena que Dona Maria tenha falecido um pouco antes dessa composição. Ela decerto iria gostar, fica  a minha homenagem a tudo que aprendi com ela”, reflete Gilton. 


Em 2016, “O Ferro de Passar a Roupa” ganhou a sua sexta versão na interpretação do cantador Raymundo Sodré registrada no disco “Os Girassóis de Van Gogh” (concorrente ao 28º Prêmio da Música Brasileira na categoria melhor cantor regional). “Pra gente é uma honra tê-lo entre os parceiros que deram vida à nossa obra. Ele sempre me disse que gostaria de ter feito essa música. A versão ficou magnífica, ele soube fazer uso da sua singularidade com maestria”, declarou Gilton. 


Além de Sodré, o “O Ferro de Passar a Roupa” já foi gravada por Carlos Villela, Paulinho Leite, Edinaldo Santana, Irah Caldeira e pelo próprio Gilton no disco Forró de Qualidade. Natural de Ubaíra, Gilton começou a sua trajetória de compositor de sucesso em 1984, no Festival dos Bancários da Bahia, ganhando o prêmio de melhor letrista pela canção “Grande Circo Brasileiro”. Dali em diante suas canções cuidariam de encontrar acolhimento nos ouvidos atentos, seja em festivais, shows ou rodas de violão. Assim foi com o “O Ferro de Passar a Roupa” que por onde passa convida pra cantar junto o refrão: “Abana o fogo minino, mamãe dizia pra mim – suada enquanto engomava a velha calça de brim...”.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Doce - Diego Fox

  
Doce é uma canção de Diego Fox escrita para a sua companheira Isadora durante uma viagem romântica para a cidade de Lençóis em 2013 - ocasião em que o cantor realizou o pedido oficial de casamento. "Bem na frente de onde ficamos hospedados tinha um cajueiro lindo, todo carregado. Olhando pra ele, peguei o violão e a música veio todinha", revela Diego. 


A nova canção só seria apresentada a companheira em Salvador, depois de receber os ajustes finais. E a primeira impressão da musa foi surpreendente: "Eu lembro que a primeira reação dela foi chorar e eu fiquei preocupado, pensando que ela não tinha gostado. Mas na verdade ela tinha ficado bem emocionada e até hoje é a canção que fiz que ela mais gosta", revela Diego. A primeira apresentação pública de Doce foi em pleno casório - durante a entrada da noiva - com direito ao cantor compartilhando da alegria daquele momento com os convidados. Confere aí na filmagem abaixo:


Doce foi gravada em São Paulo, no antigo estúdio Casa Verde da banda Maglore, em 2014. Ela aparece como fruto lírico/romântico de uma vertente autoral ainda pouco conhecida do vocalista da Suinga. Ela conta com a participação do irmão de Diego, Chico Matos (violino), de Thiago Gomes (bateria), Sílvio de Carvalho (guitarra), Felipe Coelhote (baixo) e Ícaro Reis (guitarra e produção). É Fox Love!