Doçura é uma música da cantora Ana Luísa Barral que registra as suas memórias de um relacionamento amoroso que durou dois anos. A faísca da criação brilhou logo quando ela se percebeu enamorada. “Eu olhava pra ele durante longas tardes me perguntando como tinha conseguido me cativar tão rápido. Daí eu entendi que tinha sido a doçura dele”, confessa Ana Luísa.
A beleza colhida se tornou melodia suave, ganhou arranjo poético e se espalha aos quatro cantos: Doçura dá nome ao primeiro disco da cantora lançado na última semana. “Quando canto hoje sinto muito amor. É uma força gigante, por isso ela dá nome ao álbum, porque gostaria de chegasse nas pessoas dessa forma gentil, doce”
Foto: Nti Uirá
Lançada como prévia do álbum, a faixa ganhou clipe dirigido por Ana Luísa em parceria com Flora Rodrigues. A película amplia o baú de memórias da autora revisitando o Centro de Salvador através dos pontos de encontro do casal. Os cenários ganham contornos oníricos na perfomance das atrizes que entoam a canção doce de Ana Luísa.
"Sabe aquele dia, em que você deita pra
dormir, depois da meia noite, e quando dá 3 da matina a cabeça acorda, em
alta velocidade, e não deixa o corpo descansar?" Essa foi a
inquietação que levou Irmão Carlos a escrever "Acordei de novo",
faixa gravada no seu primeiro disco solo lançado este ano.
Na música Irmão confessa de forma crua o seu duelo noturno do
corpo (que quer dormir) com a mente (que já acordou). A identificação que provoca
nos ouvintes até já levou o autor a ser questionado se não a teria escrito por encomenda.
Afinal público-alvo é o que não falta: segundo indica pesquisa do Instituo do Sono mais da
metade dos brasileiros tem problemas relacionados ao hábito de dormir.
Foto: Ted Ferreira "Na verdade eu não tenho
problema nenhum em dormir. Eu deito e durmo facilmente. O problema é continuar
dormindo. E aí o que eu faço? Aperto o olho, acreditando que vou enganar a
mente, mas aí é quando mais vem merda no juízo!", explica Irmão Carlos.
Com arranjo psicodélico e
participação especial do juízo do próprio vocalista, “Acordei de Novo” retrata com humor as peripécias daqueles que despertam
repentinamente na madrugada.
O desenhista e compositor Davi Comodo estava em visita à Fortaleza quando começou a rascunhar Odisseia Baiana – música que levaria o Prêmio Caymmi 2015 de melhor canção na interpretação de Felipe Lorenzo e também de melhor arranjo assinado por Paulo Mutti. “Eu lembro que tava tocando Mucuripe do Belchior e naquele sentimento marítimo foi que surgiu a melodia. Dali voltei pra Salvador com a melodia e uns primeiros versos”, rememora Davi.
Foto: Adenor Gondim
As ondas cearenses foram encontrar às da Baía de Todos os Santos quando o esboço foi apresentado ao poeta e físico Thiago Lobão. No embalo ganhou a perspectiva mítica que lhe faltava. "Imaginei como seria eu, menino perdido como Odisseu, só que entre as ilhas da Bahia de Todos os Santos tendo que voltar a Itaparica", reflete Lobão. (Com exclusividadevocê pode conferir no link abaixo a primeira gravação de Odisseia Baiana feita pelos seus autores)
A parceria entre Davi e Lobão em Odisséia Baiana foi assinada pouco tempo depois de terem sido apresentados, no ano de 2010, em pleno turbilhão de um movimento musical baiano que até hoje rende frutos: o Manontropo. O coletivo de compositores se reunia nas tardes de sábado para criar e apresentar em primeira mão as suas criações. A proposta foi levada aos palcos da cidade de Salvador em apresentações que refletiam a diversidade da cena naquele início de década. Foi imerso nesse coletivo de ideias que o cantor Filipe Lorenzo conheceu Odisséia Baiana:
Foto: Heder Novaes
“Tudo nela bateu certo de cara: o contorno melódico, a temática, a poesia. Ali eu me vi diante de uma grande canção”, explica Lorenzo. De pronto a música saltou para o repertório da sua banda Panos e Mangas; para então em 2015 ser gravada e dar nome ao seu primeiro disco solo. Coincidiu deste ser também o ano de retomada do tradicional Prêmio Caymmi de Música. A faixa foi inscrita e não só levou o prêmio de melhor canção, como também de melhor arranjo assinado por Paulo Mutti, o que surpreendeu a todos - honrando ao mesmo tempo uma nova geração de compositores de música popular na Bahia, um arranjador e o talento do interprete em sua estreia.
Em estúdio a Odisseia Baiana foi registrada respeitando os mitos musicais da terra: na ficha técnica da canção estão o maestro Paulo Mutti (guitarra e arranjos), o toque ancestral do percussionista Gabi Guedes, o trompete e fulgelhorn elegantes de Joatan Nascimento, a pulsação precisa do baixo de Alexandre Vieira e o balanço orgânico da bateria de Ivan Huol.
Poliamor (letra) é uma canção gravada pela banda A Flauta Vértebra para participar da XIII Edição do Festival de Música da Educadora FM. Ela foi escrita pela vocalista Sohl como um grito em defesa da liberdade nos relacionamentos amorosos:
“Surgiu de uma necessidade minha de me sentir livre, ainda que não fosse me relacionar com outras pessoas. Eu queria estar com meu parceiro inteira, por uma vontade minha, não por obrigação”, declara a cantora.
A canção, produzida pela banda em parceria com Irmão Carlos, foi selecionada entre as 15 finalistas do Festival e saltou do estúdio direto para a programação da emissora. Foi quando o público passou a procurar Sohl pedindo conselhos sobre a abertura de seus próprios relacionamentos.
“Aí é que está a magia da coisa, para cada um funciona de uma maneira. Não se trata de abrir o relacionamento - até porque a palavra "fechado" já me sufoca um pouco -, e sim de ter a liberdade de estar porque se quer estar! Para alguns casais, se relacionar fisicamente com outras pessoas pode ser o ideal, para outras, fica só no imaginário” explica Sohl.
Foto: Gether Ferreira
Poliamor segue expandindo o seu campo de atuação: vai ganhar clipe ainda este ano e é fonte de inspiração também do curta-metragem “O Amor de Poly”, com roteiro e direção de Sohl. Um fato curioso é que o companheiro de Sohl, Carlos Villas-Boas, é também o guitarrista d’ A Flauta Vértebra, responsável por acompanhá-la no canto livre de Poliamor.
“Gosto da abordagem ampla que a canção traz sobre nossa capacidade, enquanto seres humanos, de amarmos outros seres humanos; desenvolvermos um amor maior que uma relação necessariamente carnal. Claro que acaba não sendo a coisa mais fácil do mundo escapar dos modelos morais e culturais em que somos criados”, explica Carlos Villas-Boas.
O single de hoje nasceu de uma oração. Em algum dia do ano de 1999, o baiano Lalado, inspirado nos preceitos budistas - sua prática diária - escreveu frases soltas em seu caderno. Dias depois receberia a visita de dois amigos compositores (Alexandre Leão e Manuca Almeida) e do produtor cultural Jorge Albuquerque - conhecedor dos versos e responsável por “botar pilha” para que eles viessen a ser musicados. Estava formada a combustão que daria origem ao hit luminoso “Pop Zen” (letra).
“Me apaixonei na hora pela letra, trabalhamos na melodia que ficou pronta no mesmo dia. O grande lance dela é a mensagem de Lalado, ela é impregnada da energia linda que ele tem”, conta Alexandre Leão.
Foto: Felipe Oliveira
A canção se tornaria sucesso nacional em 2001 na interepretação marcante dos Lampirônicos. Pop Zen foi escolhida como primeira música de trabalho do álbum “Que Luz é Essa?”, sendo promovida em rádios e ganhou clipe na MTV com direção do cineasta Paulo Caldas . A canção foi apresentada ao grupo em sua forma crua por Manuca Almeida:
“Era como se eu estivesse diante de um templo budista erguido a céu aberto em meio as encruzilhadas de Juazeiro, assistindo um irrequieto monge sentado em posição de lótus num asfalto infernal a recitar um cordel. A canção parecia não precisar do Lampirônicos. Era a banda que precisava de uma música com tal força imagética e discursiva.”, conta Nikima, vocalista dos Lampirônicos à época.
Em estúdio a canção receberia ainda o toque mágico do percussionista Carlinhos Brown. Convidado a participar dos ensaios, o cacique do Candeal pescou, nas tentativas do baixista de definição da sua linha, a ideia que ressignificaria o arranjo da canção.
“Na minha memória, naquele momento uma melodia recitativa passou a suavizar sobre uma linha de baixo robusta e pulsante. Considero este o elemento mais marcante desse arranjo e um dos elementos musicais que mais contribuíram para alicerçar a força como uma das expressões da banda”, explica Nikima.
Desde então a canção segue o seu próprio rumo encantando interpretes e público por onde passa: ela foi gravada por Ivete Sangalo no disco Festa (2001), com arranjos do maestro Letieres Leite; por Marilda Santana em 2002; pela Família Caymmi, em 2005, para a abertura da novela Essas Mulheres, da Record; pelo cantor Arnaldo Antunes, em 2012, no seu DVD Acústico MTV e pelo próprio Alexandre Leão, em 2016, no CD O Teatro ( Ao Vivo).
Reza a lenda que exista ainda uma gravação inédita feita pela cantora Daniela Mercury. “No verão desse ano, Caetano ouviu Pop Zen no meu show e disse ter amado a canção. Até me espantou o fato de que ele ainda não a conhecia. Essa música tem 20 anos e continua por aí, forte”, declara Alexandre Leão.
*Texto de Ricardo Cury, escritor, baterista e contador de causos do rock baiano.
Era primavera de 2005. Eu e Damm tínhamos gravado um disco de música dos outros pra deixar nos bares. Todas as músicas no cajon, voz e violão. Jeff Buckley, Tears for Fears, Beatles, Sade, Secos e Molhados... Empolgado com a sonoridade, Damm sugeriu que voltássemos pro estúdio porém com músicas próprias e gravássemos um disco novo. No processo de composição, ele chegava lá em casa com a melodia e a ideia pra eu encaixar outras palavras.
- Ouça essa aqui, acordei com ela na cabeça e gravei no celular – disse ele, assim que chegou, me mostrando um áudio ruim (smatphones ainda engatinhavam), mas com uma melodia tão bonita que conseguia se sobrepor ao chiado.
Passamos o dia todo construindo as partes, combinando o que poderia repetir, quantas vezes "la la lin lin lon lon lon lon" seria cantada, quando entraria os "pa ra ra pa pa" Beach Boys que estávamos ouvindo incessantemente... No fim da tarde, achando que já estava pronta, nos despedimos já marcando com Tadeu Mascarenhas a gravação pro dia seguinte.
Damm foi embora, mas a melodia continuou em minha cabeça e do nada alguns versos surgiram preenchendo o que inicialmente seriam só os "pa ra ra pa pa" Beach Boys: "já é primavera escolha a sua flor, pode ser de qualquer cor."
Mandei pra ele via SMS. Ele imediatamente ligou de volta:
– Isso é pra cantar na parte do "pa ra ra pa pa", né?
– Exatamente – respondi.
No dia seguinte, gravamos a música e tivemos a ideia de chamar um coral de crianças para cantar nela, tanto o "lala lin lin lin" quanto esse trecho novo. Entregamos a gravação ao regente Pedro Ivo, que cuidava de um coral infantil de uma ONG chamada Os Camaradinhas. Ele pediu uma semana para ensaiar e no dia marcado fomos buscar ele e as crianças para leva-las pra gravar.
– Elisa também quer cantar – disse Tadeu, quando chegamos no estúdio. Ela tinha na época cinco anos e durante a semana toda ficou ouvindo a música no estúdio do pai. Dia desses eu fui lá conversar com Tadeu e ele me mostrou um papel onde tinha escrito "já é primavera escolha sua flor, pode ser de qualquer cor...".
– Isso foi a primeira coisa que Elisa escreveu quando aprendeu a escrever – disse ele.
– Me dê pra eu emoldurar – pedi.
Era a primeira vez deles em um estúdio e estavam todos arrumados como se estivessem indo para alguma festa. Lidianne, Aline, Jamile, Patrícia e Paulo Cezar. Elas maquiadas, com penteados; ele cheiroso, com uma roupa nova. Tinham entre 10 e 12 anos. Ele ganhou uma bola de cachê e elas uma agenda com várias canetas coloridas. Era a Primavera (letra).
O single de hoje é Conversa de Botas Batidas,
gravada pela banda Los Hermanos no disco Ventura (2003). A canção foi escrita
pelo guitarrista Marcelo Camelo a partir
de uma notícia de jornal: no dia 25 de setembro de 2002, um prédio desabou no
Rio de Janeiro deixando duas vítimas fatais.
Nos escombros do Hotel Vila do Rosário foram
encontrados dois corpos: ela, uma bancária de 47 anos e ele, um
professor de 71 anos. À época o porteiro do Hotel declarou que interfonou e
chegou a ir ao quarto do casal, mas como não obteve resposta saiu. O acidente
trouxe à tona um romance proibido.
Em
entrevista à imprensa, Marcelo Camelo já declarou que a canção foi pensada
“como se fosse uma conversa do casal antes de o prédio desabar.” Além da canção de Marcelo Camelo, o acidente do hotel no Rio de
Janeiro inspirou também a artista plástica Adriana Varejão com a escultura
Linda do Rosário (2004) que se encontra exposta no Instituto Inhotim.
“– Veja você, quando é que tudo foi desabar a gente
corre pra se esconder…
– E se amar, se amar até o fim, sem saber que o fim
já vai chegar”